segunda-feira, 12 outubro , 2026

Dom Wilson Tadeu Jöck: Falta de fé é o desafio do bispo

Dom Wilson Tadeu Jöck, 59 anos, nasceu em Vidal Ramos (SC), em uma família católica de nove irmãos. Ele foi ordenado padre pela Congregação do Sagrado Coração de Jesus. Durante muitos anos, dedicou-se à formação de novos padres em seminários de Curitiba e Rio Negrinho. Em Roma, estudou psicologia. Nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro em 11 de junho de 2003, recebeu a ordenação em 16 de agosto do mesmo ano. É bispo da Diocese de Tubarão desde 19 de julho deste ano.

Karen Novochadlo
Tubarão

Notisul – Quais as suas primeiras impressões sobre a Diocese de Tubarão? Quais os principais desafios?
Dom Wilson
– A impressão primeira da Diocese de Tubarão é muito positiva. É uma igreja com a participação muito intensa e muito vibrante, tanto nas celebrações quanto nas organizações. A igreja de Tubarão tem uma grande vitalidade, com um poder de acolhida forte. Eu me sinto acolhido na Diocese de modo geral. Desafios? Eu diria que os desafios são os de nosso tempo. Há um certo relativismo religioso. Noto sinais de menos fervor e, também, um relaxamento nos princípios, não só de Tubarão. Isto sempre será um grande desafio na vida do bispo.

Notisul – Como o senhor vê o crescimento das outras religiões?
Dom Wilson
– Esse é um outro sinal do nosso tempo. Eu diria que na Diocese de Tubarão isto é relativamente pequeno, mas existe. É algo que devemos ver com naturalidade. Primeiro, nós, católicos, não conseguimos dar o atendimento necessário para todos os fiéis. Claro que muitos desses, quando são contatados por outros credos e comunidade religiosos, sentem-se envolvidos e os seguem. Devemos admitir com toda a humildade e ao mesmo tempo devemos fazer o possível dentro da nossa igreja.

Notisul – Como você trabalhará estes desafios?
Dom Wilson
– O centro do nosso posicionamento é este: o evangelho tem um grande atrativo, que é o próprio evangelho. Se nós conseguirmos passar o que é a pessoa de Jesus, atrairemos o jovem, o adulto e a todos. Então, o principal é pregar o evangelho e ensiná-lo exatamente como é. Temos toda uma organização pastoral.

Notisul – Existem diferenças entre as dioceses de Tubarão e do Rio de Janeiro?
Dom Wilson
– Em termos de fé, a diferença não é muito grande. Mas a cultural e de cidades é. O Rio de janeiro tem a sua luminosidade e tudo o que acontece lá é notícia no Brasil inteiro. E é o mesmo que acontece na igreja do Rio de Janeiro. Tudo o que se faz tem um dimensão diferente. Tudo se torna grande. Os fiéis são muito participativos, presentes e espontâneos, proclamam a fé em qualquer ambiente sem grande dificuldade. Isso aqui no sul é um pouco diferente, devido à origem e ao lado cultural. A igreja de Tubarão é muito organizada, estruturada e articulada, até por ser menor que o Rio de janeiro.

Notisul – Como o senhor visualiza o turismo religioso?
Dom Wilson
– Essas são coisas que devemos colaborar. O projeto não nasceu dentro da igreja. É um projeto sócio-político, que envolve o nome das cidades. Madre Paulina é santa de Imbituba, porque a pessoa que recebeu o milagre é de lá. Em Laguna, temos a Nossa Senhora da Glória e, em São Luís, a Beata Albertina. Esse é o corredor religioso. Quem pensa o faz mais em termos políticos do que religioso. Uma grande movimentação de pessoas acaba deixando dinheiro. Cabe a nós da igreja dar um cunho mais religioso, com pequenas celebrações, publicações e ensinamento das congregações.

Notisul – Tem se falado muito da interferência da igreja em questões políticas. O papa sugeriu que os bispos indicassem candidatos aos fiéis?
Dom Wilson
– Não. Nós devemos esclarecer os eleitores quanto aos valores cristãos, e fazer isso com coragem e não se omitir. O eleitor é que vai identificar se há algum candidato com valor ou contra-valor. Essa é uma interpretação meio ligeira da coisa, como se o papa estivesse interferindo. Nem nós interferimos, muito menos o papa, que não conhece tanto a realidade política brasileira. Mas, em nível de princípios, a igreja sempre esclareceu. A imprensa sempre gosta de focar em algo polêmico e isso acabou ganhando realce. Em Tubarão, nós distribuímos um folheto com instruções de que não se deve eliminar ou vender o voto, que se deve analisar as pessoas.

Notisul – E sobre o aborto?
Dom Wilson
– Quanto ao aborto, essa é uma questão que se levantou. O atual governo lançou o plano nacional de direitos humanos e tem coisas que não dá para concordar. Antes da eleição, nós já tínhamos protestado de forma mais contundente.

Notisul – Tem ocorrido muitos protestos no Vaticano quanto aos casos de pedofilia…
Dom Wilson
– São duas coisas que eu penso. Primeiro, eu penso que não deveria ter ocorrido isso (pedofilia) e a gente está tomando toda as providências para corrigir. Isso a imprensa divulga pouco, mas, se pegarmos as estatísticas, nos últimos dez anos não se vai encontrar. São casos antigos. A igreja fez um grande esforço para que não ocorresse mais. E está tomando providências também quanto ao passado, porque é algo que nos entristece bastante. Hoje, falar mal da igreja está na ordem do dia. Falar mal vira manchete. É uma coisa que ocorre agora e então isso tira um pouco da verdade dos fatos. O fato existiu. A igreja perde perdão e a igreja procura se lembrar, mas não há interesse de escrever isso. Quanto aos casos de abuso, existiram. Devemos reconhecer e mudar. Espero que as coisas comecem a entrar nos eixos. Estive em Roma no final de setembro para visitar o papa e via-se no Vaticano uma grande animação quanto ao resultado da visita do papa à Inglaterra. A imprensa falava mal do papa no mundo inteiro. Aqui no Brasil, isso não foi divulgado. Mas teve gente da imprensa inglesa que pediu perdão por isso ao papa. E agradeceu a visita.

Notisul – Quais são os planos para Tubarão?
Dom Wilson
– Agora estamos reiniciando os planos de elaboração das pastorais. Para o próximo ano, a preocupação é com as pastorais, com todas as comunidades. Todos são levados a dar a sua contribuição. Essa é a principal preocupação no primeiro semestre.

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